terça-feira, 3 de novembro de 2009

BURROS TINGIDOS


Uma reportagem engraçada transmitida no dia 08 de outubro em um daqueles jornais da madrugada fez-me refletir e analisar sob outra ótica dois temas muito intrínsecos à natureza do homem: a "Mentira" e o "Ódio". Nesse texto a mentira será explanada através do ato ou consequência -a farsa em si - e o ódio será exemplificado através da causa de toda a farsa, ou seja o motivo da pintura dos burrinhos.


A reportagem em questão relatou um episódio que ocorreu na cidade de Gaza, maior cidade dos territórios palestinos, onde para compensar a falta de duas zebras do zoológico local, dois burros foram pintados com listras pretas e brancas na tentativa de atender aos pedidos das crianças palestinas que nunca viram uma zebra de verdade (e até então nem uma zebra de mentira).

Cor do texto

No primeiro momento a matéria jornalística soou cômica, um amigo e eu rimos muito com a noticia, porém, após algum tempo sob uma outra ótica de análise a mesma noticia mostrou-se duplamente trágica.

Primeiro: devido as questões sócio-politicas que estão inseridas no real motivo da "falta de zebras" em Gaza.

E Segundo: "Até onde vai a capacidade do ser humano de mentir e/ou enganar seus semelhantes?"


Para a falta de zebras em Gaza temos uma cruel explicação caracterizada por conflitos árabe-israelense decorrentes da complicada situação política e geográfica entre esses povos, e a dominação do grupo fundamentalista islâmico Hamas em Gaza só piora a situação, configurando um estado crônico de bloqueio, onde falta alimento, remédio, água e combustível além da própria liberdade, e também configura uma condição aguda de holocaustro na cidade. O que explica a falta das zebras, segundo o dono das "zebras", Mohammed Bargouthi, haviam duas zebras legitimas no zoo Marah Land que fazia a alegria da criançada e encantavam os adultos, mas morreram injustamente devido a guerra entre Gaza e Israel .

Passado esse momento de reflexão sócio politico cabe-nos outra discussão importante: "a aceitação da mentira", sobretudo nos casos em que farsa intencional tem o poder de distrair, adiar ou amenizar a dor do próximo atribuindo assim à mentira possíveis aspectos relacionados à filantropia (amor à humanidade), o que na minha concepção, em qualquer caso, se assemelharia mais à pilantropia, (falsa filantropia/ pilantra).


No caso da reportagem em questão não há outro adjetivo ao dono das zebras, Sr. Mohammed Bargouthi, mais apropriado que pilantra, realmente as falsas zebras divertiram as crianças e

e encantaram os adultos, mas essas emoções são breves ilusões relacionadas à mentira, ora essa diversão e encantamento significa apenas que a mentira cumpriu exatamente seu papel: o de ludibriar e confundir as pessoas em nossa sociedade.


Não sou tão romântico a ponto de imaginar uma sociedade em que a mentira não existe, na qual a verdade é dita a todo tempo em todas as situações (eu sempre uso da mentira com supostos propósitos filantrópicos, e às vezes para conseguir beneficios próprios) e assumo que compartilho a idéia de Nietzsche, que considera s mentira como uma necessidade à nossa sobrevivência, para que possamos viver e superar a aspereza da realizada.

Porém, fica muito mais evidente a pilantropia envolvida na farsa de Gaza quando o preço cobrado pelo zoológico para exibir as zebras de araque são 15 dólares por pessoa (cerca de R$ 30). Segundo o dono das zebras falsas a operação para manchar os burros foi realizada com tintura importada da França e custou cerca de 40 mil dólares (cerca de R$ 80 mil).


Não julgo esse cara,tampouco o chamaria de pilantra, caso não houvesse oportunismo financeiro de sua parte...

- Mas meu amigo, quem irá acreditar em sua palavra de pilantra agora?





domingo, 1 de fevereiro de 2009

MUSIC AND ME

Indiscutivelmente atribuo à música uma das mais gloriosas dádivas, se não a maior, capaz de alterar sentimentos e mexer com os sentidos de seus sensíveis ouvintes.
A música é capaz de transformar indiferença em saudade, tristeza em alegria, ou, vice-versa e, através da dança, sexualiza as coisas e socializa os indivíduos. Ao ultrapassar o tímpano a música parece fazer contato direto com a alma. É uma coisa divina! e fazê-la com qualidade é uma arte.

Música sempre esteve muito presente na minha vida, relaciono muitas coisas a ela e considero que tive uma infância com muito ritmo. E Vários discos são a trilha sonora das diversas fases alegres e das poucas tristes que percorri nessas duas décadas de vida.

Posso dizer que a década em que nasci foi protagonista de um cenário musical incrível e também fora historicamente decisiva. A década que ficou marcada pela queda do Muro de Berlim, também marcou a construção de um outro tipo de muro, só que agora seria um "Muro Ideológico" que conseguiu separar um número muito maior de pessoas e dividiu-as severamente em “classes” e devido a um certo avanço da tecnologia e um consumismo desesperado a onda de paz e amor presente na década antecessora tornou-se coisa de hiponga sujo e ultrapassado.

Sting, vocalista do The Police, percebeu essa mudança e em 1982 lançou Spirits in the Material World, como a primeira faixa do albúm Ghost in The Machine. Uma levada ska, um refrão chiclete e uma letra breve, esses foram os ingredientes necessários para formar uma das minhas músicas favoritas que passou o recado de uma Nova Era que chegava. A letra era a seguinte:

"Não há solução política - Para nossa problemática evolução - Não há fé na Constituição -Não há revolução sangrenta -Somos espíritos no mundo material -Somos espíritos no mundo material -Somos espíritos no mundo material -Somos espíritos no mundo material "

É meu irmão ...pois na década de 80 haviam duas leis:"consuma e faça sucesso" e "olho por olho - dente por dente". E cada um defendia-se da maneira possível, cada qual com seu atari.

Ainda bem que tivemos uma grata surpresa no início de 1980 chamado: AC/DC. Os caras já faziam sucesso no cenário europeu, porém, só depois do rock simples, poderoso e exorcizador presente no albúm Back in Black é que fizeram a cabeça de uma multidão em todo o mundo, salvando-a da loucura pré anunciado na embalagem de cereal e salvando o heavy metal da caricatura enrabada na qual se encontrava.

Talvez pelo corriqueiro fato do seu vocalista principal ter morrido afogado no próprio vômito após um porre de whiski, pouco antes do lançamento de Back in Black, o AC/DC, agora sem o falecido Bon Scott, ganhou status de ícone do rock. E com toda razão, porque os caras são foda, e a capa do Back in Black é clássica, simples, preta e nada mais!

E parecia mesmo que tudo tendia ao caos e à loucura nos anos 80, não só através da adorável perturbação do AC/DC, mas há vários outros testemunhos musicais desse meu ponto de vista.

Closer (1980) do Joy Division anunciou que sempre haverá uma saída e proclamou a auto destruição como uma alternativa em último caso. Nessa altura do campeonato um forte odor de apelo depressivo que adoro já pairava no ar através do excelente Crocodiles dos ingleses do Echo And The Bunnymen onde podíamos encontrar o último resquício do inconformismo de Jim Morrison presente no vocal de Ian McCulloch.

Ao mesmo tempo éramos embalados por um riff simples e envolvente de baixo na música A Forest do The Cure, que nos conduzia para dentro da escuridão, correndo para o nada em uma floresta vazia como a letra da canção dizia...

E assim formou-se uma nova tendência entre os jovens da época, tornando modismo, não só o estilo gótico, mas principalmente a idéia de querer transformar em arte a melancolia, e de transformar a melancolia em algo prazeroso de sentir-se.

Muitos acham que isso foi uma tremenda viadagem. Mas eu penso que esse movimento surgiu devido ao marrasmo e à falta de um ideal. Os jovens precisavam de uma grande guerra, como ocorreu em décadas anteriores, para que tivessem uma causa para morrer.

E o Cure reafirmou esse estilo nos 43 fenomenais minutos de Pornography (1982). Imortalizando-se em camisetas, bandanas e butttons da mulecada de olhar tristonho e chapado que frequentemente encontro na galeria do rock em SP nos dias de hoje.

Conselho amigo "ouçam Hanging Garden", última faixa, do disco Pornography e saberão do que se trata.

1981 foi o ano de espera entre um albúm e outro do The Cure e durante essa fria espera Mask do Bauhaus mostrou o que é ser gótico por excelência através de uma sonzeira lugúbre e tetânica.

Após esse aperitivo musical, onde todas as bandas são da Inglaterra, exceto os caras do The Police, pude comprovar a minha tese de que os ingleses não são nada festivos e até então não estavam a fim de um "sonzinho alegre para balançar a jaca."

Pois até bandas mais suaves como Pretenders (1980) e Soft Cell (1981), ambas inglesas my darling, tinham um quê de desespero e inconformismo. Enquanto na primeira havia o veneno adocicado da vocalista em letras sobre ódio e lúxuria, na segunda o duo inglês proporcionou uma trilha sonora de strip-tease para ninguém botar defeito com altas doses de melancolia e sedução presente no albúm Non Stop Erotic Cabaret, Tainted Love é uma prova disso que vos falo.
Mui bom...por sinal.

Mas o terreno ainda não estava totalmente preparado. Foram necessários mais alguns anos jogando atari, assistindo à Metals Heroes como Ultraman e Jaspion ou alienando-se com enlatados gringos a la Magaiver, até que em 1985 o fenomenal Meat Is Murder do The Smiths foi lançado para reforçar a sensação de juventude perdida e de anti-autoritarismo fracassado.
E que atire a primeira pedra aquele que nunca ficou embriagado ouvindo o som desses caras"!

Pouco tempo depois o The Smiths lançou The Queen is dead (1986), e acredite...esse albúm tem um poder incrível de nos tornar um pouquinho tristes, se acaso estivermos felizes, ou um pouquinho felizes, se acaso estivermos tristes. Principalmente a música: There is a Light That never goes Out.

É após esse relato está comprovadíssimo: os ingleses são meio dow mesmo...coitadinhos!

Por isso se você estiver à procura de música dos anos 80 para divertir a grande massa chame os americanos!
Eu chamaria o Quincy Jones. Esse é o cara!
Simplesmente responsável pela produção de Thriller (1982) - o disco mais vendido da história.
Sempre ouço esse disco, juntamente com Bad (1987), com extremo carinho e alegria porque ambos fizeram parte da minha infância como nenhum outro albúm.

Recordo-me perfeitamente as tardes de 1989, deveria ter uns 06 anos de idade na época, e assistia aos programas de TV onde quando não era o Michael Jackson dançando Beat It na telinha era algum cover tentando reproduzir a correografia do Thriller, duas músicas de 1982.

Mas a minha música favorita desse genial e extravagante artista é a performática Smooth Criminal, presente no albúm Bad. Mas a faixa título também foi um pilar histórico para as pistas de dança, além de ser o recado claro dos americanos ao mundo que assistia extasiado as apresentações de Michael.


- Tá vendo seus merdas? - disseram os americanos - é assim que se produz um show grandioso e divertido para a massa!

E com toda justiça do mundo Michael Jackson foi o rei na década de 80 e ultrapassou qualquer barreira estabelecida. Negros adoraram, brancos também. Ricos curtiram e os pobres simplesmente dançavam aquela mistura em proporções exatas de Rock, Funk e R&B formando assim para o mundo um astro do pop.

E assim como a Cindy Lauper durante muitos anos foi rival de Madonna, Prince também tentou ofuscar o brilho de Michael lançando na mesma década três albúns. Em 1982 tentou jogar mel na sopa de Thriller com o albúm 1999, mas não deu muito certo...já em meados de 1984 conseguiu um sucesso considerado com o ótimo Purple Rain mostrando a todos que ao subir no palco um baixote negro com sua guitarra poderia tornar-se um gigante soul-rock. Já Sig O'The Times (1987) foi singelo e praticamente esmagado por um Michael muito mais "BAD" (1987).

O tempo mostrou nos dois casos quem foi o vitorioso dessa batalha de egos.
No caso do Michael Jackson eu concordo - ele merece ser o rei não só da década de 80 mas de todas as épocas.
No caso da Cindy Lauper com a Madonna - discordo! A Cindy Lauper era muito melhor...

Mas que essa disputa seja causadora de novos estilos sempre!
Que forme novas lendas e novos ícones também.
Que continue a produzir trilhas e mais trilhas sonoras para minha vida!
Pois independende da época ela se perpetua. Um exemplo disso é que a maioria das refêrencias que citei são bandas que estavam no auge quando eu nem havia nascido. E são bandas que estão na playlist do meu ipod até hoje e simplesmente adoro!

sábado, 31 de janeiro de 2009

Tudo Aquilo que Não Disse pro meu Chefe

Coma seus Medos


Você já passou por alguma situação em que sentiu uma vontade imensa de mandar seu chefe ir tomar naquele lugar ou então pedir pro miserável ir pra digníssima senhora que o pariu?
Com certeza já! e assim como milhares de pessoas, inclusive eu, você se conteve e engoliu a pica numa boa...kwen kwen kwen.

Puta! lembrei da cena de um filme muito louco chamado Clube da Luta. No filme em questão o personagem de Edward Norton, até certo ponto, não passa de um trabalhador pacato de escritório que, assim como muito de nós, apáticos, vive a vida meio dormindo, meio acordados. Fazendo de quem somos o que possuímos, e segundo palavras do próprio Norton no filme: "procurando um tipo de cerâmica que nos identifique como pessoa" e formando a básica sociedade de consumo em que a tensão se acumula até não ter para onde fugir.

E muitas vezes esse fictício trabalhor pacato do filme, assim como nós reais mortais, teve que engolir pica do chefe. Situações em que o sacana só porque estava num nível mais elevado na hierarquia daquela merda toda achava que tinha o direito de rebaixar ou ordenar com petulância aos seus subordinados.

Assisti a esse fenomenal filme já faz um certo tempo, mas lembro-me que numa cena o chefe da personagem de Norton leva um monte de relatórios, sei lá uma papelada enorme que não fazia parte das atribuições do funcionário e ordenou que ele desse um jeito no serviço.

Nessa altura do filme já há indícios de Tyler Durden, o seu alter ego. Para a psicologia o alter ego é um "outro eu" que atua de forma inconsciente trazendo à tona uma personalidade totalmente diferente na mesma pessoa. E Tyler Durden deseja se libertar da escravidão do sistema e mandar à merda tudo aquilo. Sendo assim, pergunta com sarcasmo e ousadia ao seu chefe, após o mesmo deixar toda papelada sobre a sua mesa:

- Você quer que eu pare o trabalho que estou fazendo, faça às presas essa porra toda que você trouxe e depois de atrasar o meu serviço ouvir um monte de merda calado? - disse o personagem de Edward Norton, que até aquele momento permanecia sem um nome no filme.

E é assim...sem nome, apenas um número, algo substituível e descartável que a maioria, pra não dizer todos, os patrões, engaregados, capatazes enxergam seus funcionários independente do filho da puta ser judeu, americano ou chinês.

Esses filhos da puta conseguem dormir em paz com suas cabeças calvas em travesseiros de pena de faizão virgem, sem nenhum peso na consciência, e geralmente vivem até uns cem anos de idade produzindo verdadeiros monstros de uma sociedade moderna.

Não têm medo de como disse Tyler Durden ao patrão numa das mais contundentes cenas do filme:

-Cuidado, um maluco pode sair por aí com uma arma semi-automática atirando nos colegas de trabalho. Pode ser alguém que você conhece há anos e nem imagina.

Portanto vamos evitar que essa matança ocorra e falar tudo aquilo que sentir vontade de falar para o cretino ou cretina quando formos injustamente subjugados ou humilhados em nosso serviço!

Tá certo eu já engoli muito sapo de patrão nesses vinte e cinco anos de idade. E talvez pelo fato de eu não dar a mínima importância à procura de alguma cerâmica que me defina como pessoa meus trabalhos são instáveis e passageiros.

Mas devo admitir que essa semana mesmo gostaria de ter falado umas boas verdades para o cretino do meu chefe:

- Abaixe o tom da voz por favor, e retire esse ar de autoritarismo dessa cara feia quando dirigir a palavra a mim. - falaria isso suavemente. - Afinal você não tem direito de gritar com ninguém seu filho da puta babaca e doentio!!!!!!! - gritaria com todas as forças para o cretino.

E você, o que teve vontade de dizer para seu chefe e não disse?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

CHARLIE


Muitas vezes, quando penso que o dia de sábado já não tem nada a oferecer e que a única alternativa para fechar com chave de ouro uma tediosa semana é tentar dormir assistindo algum lixo da madrugada na TV, sou surpreendido por algum evento empolgante, inusitado e até engraçado.

No final de semana passado ocorreu um desses casos. Eu havia relutado durante horas a idéia de retornar a São Paulo no sábado, principalmente porque trabalhei nesse dia até as 22:00 e...puta merda! depois do trampo sinto-me sugado, a única coisa que quero é ouvir uma boa música, quem sabe o albúm Marquee Moon do Television? ou Brilliant Corners do Thelonious? Algumas cervejas geladíssimas, com certeza, que me deixa no ponto para o ato mais prazeroso do dia:...mijar depois de um porre e dormir com o maldito televisor ligado.

Porém, não sei o porquê daquilo mas de uma hora pra outra senti um tremendo mal estar, algo me dizia que deveria retornar a SP de toda forma. Puta que pariu! Vasculhei a carteira e exatos doze míseros reais me aguardavam, faltava um real e cinquenta centavos para completar o custo da passagem. Que merda! terei que ficar nessa porra de Bragança Paulista mesmo? Mas quando estava acostumando-me com essa idéia eis que avisto três garrafas de cerveja vazias ao lado da cama, e lembrei que havia comprado os vasilhames pois no momento em que passei defronte ao bar não estava com os vasilhames vazios, mas combinei com o atendente de devolvê-los e receber o dinheiro referente aos mesmos devolta. Eureka! devolvi as garrafas vazias e recebi cinco reais.

É eu sei...é uma merda ficar duro.Deve ser tão ruim quanto foder cu de gato. Mas pelo ao menos resolvi meu problema do momento e retornei a São Paulo.

A viagem é breve, ou melhor, deveria ser. O percurso que não passa de uma hora e dez minutos consumiu mais de duas horas, só sei que dormi e quando acordei já estava na estação Tiête do mêtro ouvindo velhos e mulheres a reclamar sobre a lerdeza do motorista e enquanto formavam a fila para descer do ônibus resmungavam pelos cantos. Uma gorda que trajava um vestido floral enorme, que mais parecia o antigo lençol de minha cama da época em que era casado, repetia aos quatro cantos que o motorista se perdeu em um dos cruzamentos antes do aeroporto de Guarulhos. Na hora falei comigo mesmo: "taí três coisas que combinam - velhos, filas e gordas que apurrinham a paciência a todo tempo."

Esperei todos descerem e segui meu destino. Conferi a hora. Puta merda! o filho da puta se perdeu mesmo, chegarei por volta das 02:00 em casa. Tudo bem, quem se importa?Lá pelas 01:10 estava no bairro dos meus familiares na periferia de SP. E podem acreditar...passe o tempo que for tudo por ali continua do mesmo jeito. As mesmas figurinhas perambulando pelas ruas fétidas, dando rasante de moto ou pisando em cocô de cachorro, por vezes até em bosta de cavalo ou sei lá de quem. O fato é que deve-se andar com cuidado por entre aquelas ruas para não carimbar o tênis com a merda de quem quer que seja.

Próximo ao quarteirão do meu destino começo a ver de longe uma silhueta acompanhada de um cachorro. Por alguns metros ainda sem identificação essa silhueta vinha ao meu encontro, sob a luz fraca dos postes, e levando-se em consideração que vários deles estavam com as lâmpadas quebradas identificar alguém a dois metros de distância naquela circunstância era uma tarefa difícil. Mas percebi que era algum velho conhecido, tinha algo familiar no andar desajeitado, no corpo desproporcional que gingava como que se os membros superiores e inferiores fossem algo totalmente a parte do tronco e do restante todo do conjunto.

O cachorro à medida que a distância diminuia tornava-se cada vez maior e mais assustador, percebi que era um pit bull e o que era pior estava sem nenhuma corrente ou mordaça, apenas seguia fielmente cada passo do lado direito do seu desengonçado dono. Finalmente em frente a uma padaria que já estava fechada, mas com tudo quanto é lâmpada fosforescente acessa do lado de fora e com um enorme painel black ligth vermelho deparo-me frente a frente com a tal silhueta e reconheço a figurinha carimbada. Chama-se Martin, é um antigo conhecido e há algum tempo não nos víamos.

-Ei Martin! Quanto tempo cara.

- Marcelinho!

E por uns cinco minutos a mesma palhaçada: "Como você está?". "Sumiu ein". "Fazendo o quê da vida?"Até que percebi que o enorme pitbull estava ao meu redor.

-Puta veado! e esse cachorro? Não é perigoso andar com ele solto?

- Fica sossegado, o cachorro obedece aos meus comandos.

Realmente era um cachorro que impunha respeito, não só pelo fato da boca gigante que ocupava praticamente a cara toda, mas também pelo porte vigoroso. Parecia um filhote de touro com bocarra de hipopótamo e presas de lupus.

Martin estava meio chapado mas raciocinava perfeitamente. Ele sempre teve um certo magnetismo com os cães. Para ele o cachorro é o melhor amigo do homem, e avaliando o seu caso quiçá o único amigo de verdade que pode ter em toda vida. Sempre que nos encontrávamos havia algum desses fiéis amigos ao seu lado. Houve um tempo que era visto por todos os lugares acompanhado do Duke, outra vez foi o Sadann, o Braddok, e por aí vai... mas há um que permanece sempre em sua lembrança despertando seu mais sincero saudosismo, chamava-se Lobinho esse eu conheci com mais propriedade e realmente era um cachorro especial.

Lembro-me que o Lobinho acompanhava Martin e toda galera quando íamos nos shows toscos de punk rock nas garagens ou nos butecos de esquina, e ora, Lobinho bebia o mesmo vinho barato que bebíamos, ora, fumava por tabela a mesma erva. Era um cão vira latas, porém forte, cujo pêlo tinha um tom cinza e seu focinho assemelhava-se ao de um lobo. Todos gostavam do Lobinho, era como se fosse parte do rol de amigos. Mais tarde naquela noite Martin informou-me o triste fim do Lobinho:

-Foi estraçalhado por dois rottweilers numa disputa por uma cadela. - disse com olhos marejados. -Uma pena...a cadela era sarnenta e vadia.

-É uma pena mesmo...isso acontece com a juventude desses dias!

Mas voltando ao pit bull e à cena em frente a padaria. Olhei para o cão e perguntei ao seu dono:

- Tá certo...ele obedece seus comandos. Posso passar a mão nele?

- Claro! Ele é manso. - e sorriu.

Sendo assim, com toda confiança do mundo curvei-me um pouco, e alisei a pelugem curta e lisa e marrom do cão. Ele se manteve comportado cheirou-me o sapato e um pedaço da minha perna. E quando novamente ia afagar-lhe a cabeçorra eis que a boca gigante abre-se e uma língua aspera e molhada conseguiu como num passe de mágica lamber a minha mão inteira e um pedaço do braço. Pronto!o ritual de apresentação estava feito e a partir daquele momento não erámos desconhecidos, fiquei muito mais tranquilo.

Enquanto passava por esse ritual de aceitação Martin continuava a falar coisas sem sentido, ou devido ao fato de meu indíce de adrenalina ter ido às alturas naquele momento, só compreendi sua última frase:

- Marcelinho, vamos tomar uma cerveja?

- Puta cara...tá tarde pra caralho!

Mas depois de alguma insistência e também por estarmos com um dos mais fiéis guarda-costas, aceitei o convite.

-Aonde vamos? Nessa hora tenho certeza que já está tudo fechado. - disse meu trivial pessimismo cretino.

-Não! o bar do Gordo fica aberto a madruga toda.

O caminho até o bar do Gordo já era conhecido de ambos, pois alguns antigos amigos nossos moram na mesma rua desse tosco buteco.

-Merda! falei que tá tudo fechado!

-Vamos no bar do Paraíba.

Martin é um guia muito eficaz quando o assunto é "lugares pra se perder". Um dos melhores que já conheci.Fomos até o tal lugar. Martin, o pit bull e eu. A rua por vezes desertas às fracas lâmpadas, por vezes invadida por pequenos grupos de baderneiros chapados. Durante o percurso Martin relembrou algumas coisas de uns cinco ou seis anos atrás.

-Marcelinho, lembra daquela vez que num bate cabeça na minha casa você jogou a gaiola com o canário do meu irmão? Foi alpiste pra todo lado e o passarinho não retornou até hoje! ha ha ha ha

- Puxa cara! é verdade, faz tempo ein...nem lembrava! Só sei que estávamos curtindo Territorial Pissings ha ha ha ha ha.

Após essa breve recordação, foi coisa muito rápida, cerca de quatro minutos de diferença do bar do Gordo para o bar do Paraíba. Que merda! um depósito de destruição atrás do outro. Vejo um bar com a porta aberta. O primeiro a entrar foi o cachorro, com certeza ele ouviu nossa conversa e sabe reconhecer um bar e também é capaz de reconhecer um paraíba. O Paraíba estava curvado do lado de fora do balcão armazenando os vasilhames vazios no engradado, nem percebeu nossa presença. Instintivamente, sem que pudéssemos fazer algo, o pit bull foi de encontro ao cu do paraíba para cheirar-lhe o rabo e protagonizar outro ritual de apresentação, que é bem verdade, foi diferente do meu, mas foi uma apresentação. Como um foguete o Paraíba deu um salto no ar, virou-se e ralhou com o vigor típico de nordestino:

- Caralho! Tira esse cachorro daqui! Esse cachorro é seu? - perguntou olhando pra mim.

-É nosso... - disse a ele fazendo cara de babaca frouxo e "pianinho".

-Coloca ele pra fora agora! Como vocês andam com uma "fera" dessas solta por aí?

-Calma amigo, eu me responsabilizo pelo cachorro! O cachorro "corre pelo certo", e só obedece minhas ordens! - disse Martin num tom de voz mais digno de homem.

-Não quero saber! Prende ele lá fora ou nem vocês nem o cachorro ficarão aqui!

-É o cara tá certo Martin! prende ele ali na frente onde podemos vê-lo e vamos tomar nossa breja sossegados.

E assim foi feito, retirou a guia e a coleira que estavam em sua mochila e prendeu a "fera" num portão próximo de onde estávamos. Tomamos três cervejas sem nenhum alarde sob o olhar cismado do Paraíba e acompanhados de um senhor que aparentava ter uns sessenta anos de idade. O tal senhor já estava "alto", e pronunciava repetidas vezes as mesmas frases, mas eu não as entendia. Pra ser sincero, não fiz o menor esforço para decifrar o que ele dizia, pois parecia estar com uma piroca na boca enquanto falava coisas sobre isso ou aquilo. Até que o Paraíba aproxima-se e fala com certo ar de autoritarismo, direcionando o olhar para Martin:

- Você sabia que é proibido andar com um cachorro desses sem coleira por aí? Eu assisti no Datena e ele disse que é proibido!

-Cara, eu já disse que o cachorro é adestrado! ele atende SOMENTE aos meus pedidos. Se eu estiver numa situação de perigo ele ataca até o Bin Laden para me proteger! - disse Martin após tomar um gole de cerveja caprichado.

- Mas tenho certeza que com uma "azeitona" na cabeça ele não poderá defender ninguém! - percebi um tom de ameça desnecessário na voz do Paraíba.

Ainda bem que após essa provocação adentram ao bar dois sujeitos obrigando o Paraíba a dar-lhes o mínimo de atenção que todo freguês merece ter. Aproveito a deixa e procuro mudar de assunto, perguntando a Martin o paradeiro de antigos amigos que desde minha mudança a Bragança Paulista nunca mais os vi. De repente o pit bull começa a chorar feito um filhotinho desmamado deixando notório a todos os presentes que ele não estava gostando nada de ficar isolado e a alguns metros de distante de seu dono.

- Como é o nome desse chorão Martin? - perguntei enquanto enchia o copo novamente.

-Ainda não dei um nome para ele! Ganhei esse cachorro hoje de manhã, era de um cara que viajou pra Bahia!

-Porra! você não disse que adestrou o cachorro, ele não obedece aos seus comandos filho da puta?

-Fica de "boa". O cachorro não foi legal contigo? - disse e em seguida deu um sorriso.

-Temos que dar um nome a ele então - disse para Martin com olhar fixo no pit bull.

- Que acha de Bob?

- Não! sei lá...não combina com ele.

-Quixote então?

-Também não!

-Puta que pariu! ele continua chorando. Daqui a pouco a vizinha irá sair pra falar um monte de merda pra gente.

-Fica quieto chorão. - A única frase que o senhor sessentão falou e consegui entender.

-Taí o nome Marcelinho:Chorão! Igual o cara do Charlie Brow - disse Martin.

-Um cachorro desse tamanho chamado de chorão, definitivamente não combina.

-Mas e o cara do Charlie Brow? você já viu o tamanho dele, e a cara de mau encarado? - perguntou e foi alisar a cabeça do cachorro. - Então...todos o conhece como Chorão!

-Mas aquele cara não é forte como esse pit bull é, tampouco valente como esse pit bull deveria ser. O Chorão só é um gordo que se "acha" e tem cara de envocado porque qualquer um que tiver aquela cara feia também será.

-Mas que tal: Charles, ou melhor Charley que era como as putas chamavam o Charles Bukowski depois de uma certa intimidade?

-Tá certo! o nome dele é Charlie pra mim em homenagem ao Chorão e Charlie pra você em homenagem a esse cara.

Pedimos mais duas cervejas. E segundo palavras do Paraíba foi: a "saideira porque já tá na hora de fechar as portas".

E assim foi feito...nos despedimos do Paraíba de forma bem educada até. E o infeliz depois de toda aquela cena falou bem suavemente que adorava cachorros e percebeu que o "nosso" era manso e não iria fazer mal a ninguém.

Voltamos pelo mesmo caminho Martin, o pit bull, ou melhor, Charlie, o senhor sessentão e eu. Durante o caminho nos dedicamos a malhar o Datena:

-Você viu cara? O Datena influencia muitos Paraíbas por aí: "...andar com pit bull solto não pode. É proibido! eu vi no Datena."

-O Datena é um pau no cu. - disse o sessentão. - Aquilo não pode ser considerado jornalismo.

Já estava conseguindo compreender cada frase do tiozinho, acho que depois de cinco ou sete garrafas de cerveja todos falam a mesma língua. Paramos numa esquina e nos despedimos do sessentão. Ele curvou-se e começou a acariciar Charlie com ternura enquanto dizia que tinha três cachorros nomeando um a um e citando a raça deles. Era um senhor "manso" também, igual o Charlie...e só agora atento-me ao fato, por simples coerência, de que não perguntei o seu nome, muito menos se já havia brigado em sua juventude com dois caras por uma cadela vadia...

TO BE CONTINUED...."Charlie no bar da Deca"
O BAR DA DECA (postado dia 30/01/2009)
Pois bem, após a despedida do sessentão amigo Martin e eu ainda não dávamos a noite como perdida. Por esse motivo nos empenhamos em procurar um outro lugar que vendesse cerveja ou qualquer outro barato. Mas foi a procura mais fácil do mundo afinal eu estava acompanhado do guia mais eficaz quando o assunto é "lugares pra se perder ou se fuder".
-Agora vamos ao bar da Deca! - afirmou Martin. - Lá é firmeza tem até karaoke.
Descemos a avenida em direção ao nosso destino com a calma de um boêmio cansado. Martin, Charlie e eu. De longe dava para notar que o local estava bem mais animado do que o bar do Paraíba.
- Tá vendo Marcelinho? no bar daquele cara chato tínhamos que conversar baixinho. Que porra foi aquela? Era um bar ou uma igreja aquele muquifo?
E novamente, tendo como protagonistas Charlie e Martin, a mesma cena repetiu-se. Ordenaram para o cachorro ficar do lado de fora, e foram hostis conosco devido a recusa.
Apenas a dona do boteokê, uma senhora de aproximadamente quarenta e cinco anos com dois metros de bunda caida, mostrou-se gentil. Sempre que tinha oportunidade dava uma "pegadinha maliciosa" na minha cintura.
- O moço bonito você é daqui? Nunca te vi por esses lados! - perguntou pra mim.
- Não moça bonita! Estou morando em Bragança Paulista, mas virei aqui com frequência. -sai mudando de assunto.
-Martin! O Charlie não está com fome cara? Quando foi que você deu ração a ele?
-Puta merda! O cara ficou de levar a ração dele pela manhã, mas eu fui dar um rolê por aí e nem
voltei pra casa ainda.
-Caralho! Você é maluco! Imagina se o Charlie estiver faminto e ao invés de ver cinco dedos e uma mão só conseguir enxergar cinco salsichas e um pão de frios.
Martin apenas sorriu.
Calmamente foi até o balção e pediu a Dona Deca um "salgadinho Torcida". O cachorro comeu vorazmente um pacote inteiro daquela porcaria apimentada.E enquanto afagava sua cabeça pensei: "espero que o Datena esteja errado mesmo".
O pessoal sabia como se divertir naquele lugar e até que tinha um certo ar de cumplicidade entre eles. Havia um grupo de bolivas calados de um lado, um pessoalzinho jovem barulhento e uns tiozinhos também, porém interagiam uns com os outros na maior alegria.
Cerveja sem parar enquanto alguns cantavam no karaokê. Atentei-me ao fato de que as imagens que eram reproduzidas na tela eram bem peculiares e se adequavam ao cenário.
Nada daquelas fotografias de pôr do sol na praia ou alpes suiços, as imagens que apareciam no telão eram de crianças bolivianas com roupas coloridas, filhotes de cachorro e de gente comum com a cara de periferia se beijando.
Uma tiazinha lá pelas 03:00 da madruga cantou "Vento no Litoral" do Legião.
Puxa! essa música traz recordações pra mim. Curti aquela melodia e provei novamente o gosto amargo de saudosismo de bêbado.
Mas pra passar o clima fim de festa, logo após a tiazinha cantar Vento no Litoral Martin pede uma ficha e escolhe "Dias de Luta" do Ira.
Cantamos como loucos embriagados enquanto Charlie bebia água num pote de margarina furado. Depois berramos feito dois desesperados "Até Quando Esperar" do Plebe Rude. Logo em seguida nos despedimos dos Bolivas, depois da mulecada e finalmente dos tioziznhos e fomos cada um pra sua casa.
...É foi uma noite agradável e Charlie é meu novo amigo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Tarde demais pra isso...




Acabei de criar este blog. Este ou esse blog? bom depende do elemento que escreve e do que lê.
Creio que no presente momento seja este, porém, logo mais quando eu não estiver presente, defronte o mesmo, será esse. E a maldita reforma gramatical, quem sabe, poderá mudar isso daqui algum tempo. Mas isso é outra história...

Está tarde demais ("Is too late.."como aquela antiga canção do...puta como é mesmo o nome daquele cara que meu pai ouvia na minha infância? ah lembrei! Jonhy Rivers!
Tarde demais para escrever hoje...02:00am. Irei dormir, durante as férias fico sozinho na república (té que é bom). Quem sabe se passar um filme "dos'bão" no corujão eu cairei no sono no sofá da sala mesmo (essa frase soou como um trava linguas). Coloquei um albúm do Roxy Music e liguei a TV (on mute)...a próxima música será "More Than this"e o próxima notícia do Jornal da Globo, não ouvi! Mas sei que é algo sobre Ataques no Oriente ou conflito não sei onde. Justamente nesse momento o refrão fez-me pensar sobre odia de hoje:

"More than this - you know there's nothing More than this - tell me one thing More than this - you know there's nothing..."
"
Mais que isto - não há nada Mais que isto - me conte uma coisa Mais que isto - não há nada..."


Será que foi um recado do Brian Ferry especialmente para mim?